“Se você é negro...”: o vídeo com dicas de sobrevivência à intervenção no Rio
Em um dos trechos do vídeo de pouco
mais de três minutos, Santiago pede que “em lugares públicos, evite o uso de
furadeira ou guarda-chuva longo. Parece bobagem mas muitas pessoas olham isso
de longe e pensam que são armas de fogo. Prefira guarda-chuvas pequenos que
podem ser dobrados e guardados em uma bolsa”.
Não é bobagem mesmo. Em uma manhã de maio de 2010 um policial do Batalhão de Operações Especiais (Bope) do Rio de Janeiro assassinou com tiro de fuzil o fiscal de supermercados Hélio Ribeiro, de 46 anos, morador do Morro do Andaraí, na zona norte da capital. Ele estava na laje de sua casa prendendo uma lona com uma furadeira. À época, o capitão Ivan Blaz, porta-voz do Bope, afirmou que “o policial está transtornado psicologicamente”, e disse “lamentar demais o fato, uma vez que o policial tem uma carreira ilibada e ocorreu um fato infeliz”. Posteriormente o cabo Leonardo Albarello, autor do disparo, foi absolvido pela Justiça.
O alerta do vídeo ganha relevância
com a intervenção militar no Estado uma vez que integrantes do Exército que
vierem a matar civis durante uma operação no Rio não serão julgados pelo
Tribunal do Juri, mas sim por uma corte militar, segundo uma lei aprovada no Senado em 2017. Entidades que
monitoram o uso da violência pelas autoridades em comunidades pobres acreditam
que isso é, na prática, uma carta branca para matar. Além disso, a taxa de
homicídios por 100.000 habitantes de negros é quase o dobro da de brancos no
Rio: 21,5 ante 41.
“Em caso de abordagem não faça
movimentos bruscos e não afronte os agentes. Se for pegar algo na bolsa, peça
permissão para o policial”, explica AD Junior em outro trecho do vídeo. Mais
uma vez a dica de segurança está firmemente ancorada na realidade: o produtor
de eventos Luis Guilherme dos Santos, de apenas 18 anos, foi morto pela polícia
em Nova Iguaçu, região da baixada fluminense, em 4 de janeiro deste ano. Ele
estava em um caminhão da empresa na qual trabalhava quando foi abordado. Ao
descer do veículo sua mochila caiu no chão. Santos se abaixou para pegá-la, e
isso bastou para que fosse alvejado pelas costas – na cabeça, abdômen e ombro.
Os autores do vídeo apostam na
tecnologia como uma ferramenta - e aliada – para que os negros sobrevivam às
abordagens. “Não deixe de andar com celular, com a bateria sempre carregada.
Com ele você consegue fazer não só as ligações, mas também as gravações, e
compartilhar a sua localização com amigos pelo whatsapp ou
Facebook”, diz Carvalho. Ele também encoraja alguém que seja parado pela polícia
ou pelo Exército a gravar a abordagem com o telefone. “Tente gravar o máximo de
coisas. Data, local, vítimas, testemunhas... Com o celular na horizontal”,
afirma. O jornalista também destaca que sem a autorização de um juiz, “ninguém
pode olhar seu celular”.
O vídeo, apesar de lançado dias
depois do anúncio da intervenção militar no Rio, vale para qualquer época do
ano, com ou sem Exército, em praticamente qualquer grande cidade brasileira
onde a população negra é mais vulnerável. Por fim, o vídeo traz um lembrete
importante. “Não leve pinho sol ou água sanitária dentro de sua mochila ou
bolsa”. O trecho faz uma menção ao ocorrido com o catador de materiais recicláveis Rafael Braga, que amargou
anos de prisão após ser detido em junho de 2013 portando uma garrafa de
desinfetante. Segundo o Ministério Público, ele iria utilizar o material para
fazer coquetéis Molotov. Foi condenado a quatro anos e oito meses em regime
fechado.
Veja o vídeo:
MSN e El País
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