Casa de família morta foi roubada e revirada; filha do casal e namorada estão presas
Em São Paulo, na região do ABC, três pessoas da mesma
família -- pai, mãe e filho -- foram encontradas mortas, na última terça-feira
(28), dentro de um carro incendiado. A polícia prendeu a filha do casal e a
companheira dela, mas a investigação continua. A reportagem é de Valmir Salaro.
Imagens mostram o interior da casa da família depois do
crime. Sapatos e roupas jogados no chão. O quarto do casal Flaviana e Romuyuki
está todo revirado. O quarto do filho, Juan Vítor, também está bagunçado. A TV
da sala sumiu.
“Foram levados bastante joias, pelo que os familiares
falaram. Eletrodomésticos, valor em espécie - Real e moeda estrangeira”, afirma
o delegado Ronald Marques, da Delegacia de Investigações Criminais de SP. “A
questão de ter subtraído objetos da casa pode ser uma simulação pra mostrar que
aquilo não seria um homicídio e sim um crime patrimonial”, aponta Ronaldo
Tossunian, delegado seccional de São Bernardo do Campo.
A TV de Juan Vitor não foi levada. Na cozinha, sinais de um
jantar que nunca ficaria pronto. “Havia panela com óleo em cima do fogão, com
frango praticamente cru, né? Ia ser fritado, seria fritado”, acrescenta Ronald.
Na garagem, o carro antigo de Romuyuki. Antes do crime, esse
mesmo carro aparece em imagens de uma das câmeras de segurança do condomínio
onde a família vivia, no ABC Paulista. Atrás dele, entra no condomínio o carro
da filha Ana Flávia Gonçalves. A imagem é uma das peças de um quebra-cabeça que
as investigações ainda estão montando.
Ana Flávia e a namorada, Carina Ramos, foram presas na
quarta-feira (29). Os corpos dos pais de Ana Flávia, Romuyuki e Flaviana, e do
irmão, Juan Vitor, foram encontrados carbonizados dentro de um dos carros da
família. “Todos os indícios apontam para a participação das duas. Então, essa é
a linha de investigação”, fala o delegado Paul Verduraz, da Delegacia de
Investigações Criminais de SP.
Segundo a perícia, as vítimas já estavam mortas quando os
criminosos incendiaram o carro. “Foram traumatismos crânio-encefálico na
têmpora direita. Os três do mesmo jeito. Dá a entender que tenha sido a mesma
pessoa”, destaca o delegado Ronaldo. Mas que pessoa? “A gente acredita que
existam pelo menos mais três pessoas envolvidas nesse crime, fora as duas”,
completa.
Na noite do crime, segunda- feira passada (27), o carro de
Ana Flávia entra no condomínio e sai dele mais de uma vez. As câmeras de
segurança mostram o carro de Ana Flávia chegando às 18h16. Pelas imagens, não
dá pra saber quem está dentro dele. Cinco minutos depois, o carro sai.
Às 19h56, chega o carro do pai. Também não dá pra ver quem
está dentro. E, logo atrás, entra de novo o carro de Ana Flávia. Oito minutos
depois, Carina, a companheira de Ana Flávia, entra a pé. Está de calça comprida
e encasacada, com o capuz na cabeça. “Emum dia que tava uma temperatura
bastante elevada”, chama a atenção o delegado.
Às 21h01, uma pessoa está sentada em um canteiro. Segundo a
polícia, é Carina, que agora se levanta e sai. Três minutos depois, o carro de
Ana Flávia deixa o condomínio. No lado esquerdo do vídeo, uma pessoa que parece
estar usando capuz passa pelo carro. O carro pega a mesma rua, vira em outra e
para. A pessoa vai até ele. Aí o carro parte.
Às 22h01, o carro volta ao condomínio e, cerca de um minuto
depois, sai de novo. Às 22h12, ele volta. E às 22h36, chega o carro de
Flaviana, a mãe de Ana Flávia, possivelmente vinda do trabalho.
Ana Flávia e a mãe trabalhavam juntas nesse quiosque de
perfumaria num shopping. “Montaram uma segunda loja de perfumaria e,
financeiramente, estava progredindo”, conta o delegado.
A polícia ainda não sabe se Flaviana estava sozinha no carro
quando chegou em casa. “Nós ainda temos essa dúvida. Se ela foi sequestrada
fora de casa ou se ela chegou e encontrou os bandidos dentro de casa, já com os
outros familiares dominados”, diz o delegado Verduraz.
Quando já é 1h13 de terça-feira, Carina aparece de bermudas,
segurando um capacete. Atrás dela passa alguém levando uma moto e, um minuto
depois, saem o carro de Ana Flávia e, logo atrás, o carro da mãe.
Manchas de sangue foram encontradas na casa e também nas roupas
de Ana Flávia: “Já tinham sido lavadas, mas com aquele reagente que nós temos
foi possível identificar", conta delegado. Em um dos três depoimentos que
deu à polícia, Ana Flávia disse que era sangue menstrual. A perícia está
analisando as roupas.
No primeiro depoimento, ela disse que o pai devia R$ 200 mil
a um agiota e tinha saído pra pagar uma parcela da dívida. Como é que o pai vai
pagar um agiota levando o filho pra uma situação dessa?”, questiona o delegado
Tossunian. No último depoimento, prestado na sexta-feira, a versão mudou: elas
afirmaram que houve um assalto.
Ana Flávia e Carina moravam em uma favela a três quilômetros
do condomínio em Santo André, no ABC Paulista. Segundo as investigações, os
pais de Ana Flávia nunca aceitaram o relacionamento, porque achavam que Carina
tinha ligações com criminosos que vivem na mesma favela.
“Eu acredito que as duas arquitetaram o crime, tentaram
maquiar, pra ficar tudo pra elas. Tinha garrafa de água sanitária vazia no
quarto, já tinha passado pano com água sanitária no chão... E por que a casa
estava trancada? A casa estava totalmente trancada. O chaveiro teve que abrir”,
acredita Flávio de Menezes, irmão de Flaviana.
Procurada pelo Fantástico, a defesa de Carina e Ana Flávia
não quis se manifestar. Elas estão com prisão temporária.
A polícia identificou dois homens que participaram do crime,
mas os nomes não foram divulgados. As investigações estão sob sigilo. “Vai
chegar ao final do inquérito, e nós teremos a real motivação”, afirma delegado.
“Eu preciso dessa resposta. Eu preciso do porquê. Preciso da
justiça feita”, diz Flavio.
Veja a reportagem do Fantástico. Clique AQUI.

Nenhum comentário: