Venezuela torturou militares acusados de conspiração, dizem grupos de direitos humanos
Dois grupos de direitos humanos denunciaram em um relatório
publicado nesta quarta-feira (9) que as forças de segurança da Venezuela têm detido
e torturado dezenas de militares acusados de conspirar contra o governo e, em
alguns casos, até seus familiares.
O relatório da Human Rights Watch e da organização
venezuelana Fórum Penal, que também afirma que as forças torturaram civis, é
publicado no momento em que países da região pedem que a Corte Penal
Internacional investigue o governo da Venezuela por supostos crimes contra a
humanidade.
Mais de 170 soldados foram detidos por traição, rebelião e
deserção no início de 2018, frente ao total de 196 em todo o ano de 2017, de
acordo com documentos vistos pela Reuters.
O relatório, que documenta diversos incidentes ocorridos em
2018, sugere que o governo venezuelano está preocupado com a lealdade das
Forças Armadas, à medida que um colapso econômico desencadeia ampla emigração e
diversos países advertem que não
irão reconhecer o presidente Nicolás Maduro, depois que ele tomar posse
para um novo mandato nesta quinta-feira.
Os grupos identificaram 32 casos, nos quais supostos
conspiradores detidos pelo serviço de inteligência Sebin, e pelo grupo de
inteligência militar DGCIM foram alvos de espancamentos, asfixiamento e choques
elétricos para revelar detalhes de supostos planos contra o governo.
Quando autoridades não conseguiam encontrar os suspeitos, em
alguns casos, eles detinham e abusavam de familiares para descobrir sua
localização, segundo o relatório.
“O governo venezuelano tem brutalmente reprimido membros das
Forças Armadas acusados de conspirar contra ele”, disse o diretor da Human
Rights Watch para as Américas, José Miguel Vivanco, em comunicado. “Os agentes
de inteligência não apenas estão detendo e torturando membros das Forças
Armadas mas, em alguns casos, estão indo atrás de suas famílias e outros
civis”.
Parceiro de sargenta
Em um caso específico, um dia antes de Maduro ser reeleito
em uma votação no dia 20 de maio de 2018 -- que não foi reconhecida
por muitos países da América Latina, pelos Estados Unidos e pela União Europeia
--, oficiais do Exército não identificados prenderam José Marulanda, parceiro
de uma sargenta do Exército acusada de conspirar contra o governo.
Marulanda disse ter sido espancado na cabeça com tanta força
na sede da DGCIM, que perdeu a audição do ouvido direito, segundo os grupos.
Outro lado
O Ministério de Informação da Venezuela não respondeu a
pedido de comentário sobre o relatório. Maduro frequentemente acusa os Estados
Unidos e o governo de direita da vizinha Colômbia de conspirar para derrubá-lo.
Autoridades também dizem que grupos de direitos humanos
minimizam atos de violência cometidos pela oposição, incluindo incidentes como
atear fogo em um homem durante um protesto e usar explosivos contra policiais.
Crimes contra a
humanidade
Os dois grupos de direitos humanos já acusaram a Venezuela
de torturar adversários do governo durante protestos em 2017, nos quais mais de
120 pessoas morreram.
Segundo o Fórum Criminal, mais de 12.800 pessoas foram
detidas desde 2014 nas manifestações contra o governo. Esses números incluem
manifestantes, transeuntes e pessoas que foram tiradas de suas casas sem um
mandado judicial.
Em setembro, Argentina, Canadá, Chile, Colômbia, Paraguai e
Peru enviaram uma carta ao Tribunal Penal Internacional (TPI) para que
investigasse supostos crimes contra a humanidade cometidos, segundo eles, pelo
governo de Nicolás Maduro na Venezuela.

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