Risco de prisão de Lula aumenta e eleva pressão para STF definir detenção após segunda instância
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O ex-presidente
Luiz Inácio Lula da Silva teve negado nesta terça-feira seu pedido de habeas
corpus feito ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). Os advogados de Lula
tentavam impedir uma eventual prisão caso os recursos da defesa contra a
condenação no caso Triplex do Guarujá sejam rejeitados pelo Tribunal Regional
Federal da 4ª região (TRF-4).
A defesa de Lula
argumentou que a presunção da inocência garante o direito de responder em
liberdade ao processo, enquanto couber recursos às cortes superiores. Ao negar
o habeas corpus por unanimidade, a maioria dos ministros entendeu que não há
"risco iminente" de prisão, já que o TRF-4 ainda não julgou os
recursos do ex-presidente. Eles também defenderam a legalidade do cumprimento
antecipado da pena, conforme autorizado em decisão do Supremo Tribunal Federal
(STF) em outubro de 2016.
Lula foi
condenado em janeiro a 12 anos e um mês pelo TRF-4 por corrupção passiva e
lavagem de dinheiro. Ainda não há data para que os desembargadores avaliem os
recursos - eles estão sob análise do relator dos casos da Lava Jato, o
desembargador João Pedro Gebran Neto, e podem vir a ser julgados nas próximas
semanas.
A decisão do STJ
eleva a pressão para que o STF volte a analisar a possibilidade de prisão após
condenação em segunda instância. Em placar apertado, de 6 a 5, a corte concluiu
há um ano e meio que pessoas condenadas por órgão colegiados comecem a cumprir
pena, mesmo que ainda seja possível recorrer às cortes superiores (STJ e STF).
Apesar de a
Constituição Federal prever o cumprimento da pena somente após o esgotamento de
todos os recursos, prevaleceu o entendimento de que a decisão de segunda
instância é suficiente para determinar a prisão porque é ali que se esgota a
análise de provas e do mérito do processo, enquanto nas cortes superiores cabem
apenas discussões formais de aplicação das leis.
A presidente da
Corte, Carmén Lúcia, tem resistido em pautar novamente a discussão e chegou a
dizer que fazer isso em função do caso de Lula seria apequenar o STF. No
entanto, ela tem sido cobrada por outros ministros, como Marco Aurélio Mello e
Celso de Mello. Em declarações à imprensa, o o ministro Gilmar Mendes sinalizou
que vai mudar de lado, possibilitando um placar de 6 a 5 contra o cumprimento
de pena após condenação em segunda instância.
A própria defesa
de Lula já apresentou pedido de habeas corpus também ao STF, solicitando que
seja afastada a possibilidade de sua prisão. Em meio à divisão da corte,
diversas pessoas têm conseguido decisões nesse sentido. Segundo levantamento do
jornal Folha de S.Paulo, 23% dos condenados em segunda instância que recorreram
ao STF nos últimos dois anos tiveram êxito. Os ministros que mais têm concedido
esses recursos são Ricardo Lewandowski e Marco Aurélio.
Momento apropriado para julgamento
Para a
professora de direito constitucional da FGV-Rio Eloísa Machado, é importante
que o STF julgue logo a questão, para restabelecer "segurança
jurídica".
"O tribunal
já está há meses indicando que vai mudar de posição e isso cria um ambiente de
insegurança para as pessoas que estão sendo acusadas e foram condenadas em
segunda instância. Tão grave como decidir isso em razão do Lula seria não
decidir em razão do Lula também", argumentou.
"A prisão
depende de uma loteria judicial: se cai o recurso num ministro, fica preso, se
cai em outro, fica solto. É um absurdo. Então, eu gostaria que o Supremo
firmasse sua decisão e trata-se todos de forma igual, independentemente da
decisão que venha a tomar", acrescentou.
Já o professor
de direito da PUC-SP Adilson Dallari considera que não é apropriado o Supremo
julgar sob pressão política. "Acho que Carmén Lúcia está certa em protelar
o julgamento. É melhor esperar baixar a fervura para poder julgar com mais
segurança", defendeu.
Para Dallari, o cumprimento da pena a partir da condenação em segunda instância é adequado para evitar a impunidade dos mais ricos e o STJ decidiu corretamente ao seguir a atual jurisprudência do STF. "É uma questão de igualdade. Quem vai preso? É quem não tem dinheiro. Agora, a pessoa de grande poder econômico não vai preso nunca, porque tem uma infinidade de recursos".
A coordenadora
do Núcleo de Direito Processual Penal da Universidade Federal do Paraná, Clara
Borges critica a ideia de, em nome de combater a impunidade dos mais ricos,
cercear direitos fundamentais de todos.
"Estamos
falando de uma regra constitucional extremamente importante, uma garantia
fundamental (de presunção da inocência). Essa decisão está destruindo direito
de pessoas menos poderosas e que não estão respondendo a um crime do colarinho
branco".
Para Borges, o
caso requer, sim, urgência: "Eu acho que essa pauta já demorou muito (para
voltar ao STF). O Supremo está sendo pressionado não só por esse caso (do
Lula), mas por vários casos, e precisa ter uma solução", defendeu.
Habeas corpus tende a andar rápido
Mesmo que Carmén
Lúcia não ceda às cobranças para retomar o julgamento de 2016, ela
possivelmente não evitará o julgamento do habeas corpus de Lula, já que esse
tipo de recursos tem preferência na pauta frente outras ações e costuma
tramitar com mais velocidade, explica Borges.
Ainda assim,
ressalta ela, nada garante que isso vá acontecer antes de uma decisão final do
TRF-4, o que mantém aberta a possibilidade de Lula ser preso.
Nesta
segunda-feira, o Ministério Público Federal apresentou seus argumentos
contrários aos recursos de Lula. Agora, depende apenas de o desembargador João
Pedro Gebran Neto concluir seu voto e encaminhar o caso para votação da turma,
composta por mais dois desembargadores. Não há prazo para que isso ocorra, mas,
em geral, Gebran tem dado celeridade ao caso.
No fim do dia, a
defesa de Lula cobrou que o STF julgue logo o habeas corpus de Lula. "Os
julgadores do STJ entenderam que ainda estão obrigados a seguir o precedente de
2016 do STF, que permitia a execução antecipada da pena, mesmo com a real
possibilidade desse entendimento estar superado pelas recentes decisões de
ministros da Suprema Corte", criticou a nota assinada pelo advogado
Cristiano Zanin.
"Esperamos,
portanto, que a presidência do STF coloque em pauta o Habeas Corpus já
impetrado, a fim de assegurar a aplicação da Constituição Federal que somente
permite o afastamento da presunção de inocência - e a consequente
impossibilidade de antecipação do cumprimento de pena - na hipótese de decisão
condenatória contra a qual não caiba qualquer recurso (transitada em
julgado)", cobrou.
Impacto político
Para o cientista
político da Tendências Consultoria Rafael Cortez, a decisão de permitir ou não
a prisão de Lula terá impacto eleitoral importante.
Hoje, embora o
petista esteja teoricamente inelegível pela Lei da Ficha Limpa devido à
condenação em segunda instância, ele ainda pode registrar sua candidatura,
inclusive se estiver preso, até dia 15 de agosto. Depois disso, caberia ao
Tribunal Superior Eleitoral avaliar se Lula estaria impedido de concorrer.
"Lula solto
é importante para manter sua candidatura viva por mais tempo e reforçar sua
capacidade de transferir votos para um substituto", acredita Cortez.
O PT hoje
insiste que não tem plano B para o líder petista, mas nos bastidores os nomes
que têm sido mais cotados são os do ex-governador da Bahia Jaques Wagner e do
ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad.
Do ponto de
vista da imagem de Lula, Cortez considera que a prisão não deve ter impacto
relevante. "Tanto o campo de apoio a ele como de oposição já estão bem
definidos", afirma.
Já a cientista
política Rosemary Segurado, professora da Fundação Escola de Sociologia e
Política de São Paulo, acredita que uma eventual prisão de Lula tende a
reforçar a polarização da sociedade e pode até fortalecer sua capacidade de
transferência de votos caso ele seja visto como um perseguido.
"Talvez o
melhor cenário para os outros candidatos seja ver Lula impedido de competir,
mas não preso", ponderou.
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